Qual o relacionamento genealógico entre Sesbazar, Sealtiel e Zorobabel?

Diz 1 Crônicas 3.16-19: “Os sucessores de Jeoaquim foram: Joaquim e Zedequias [i.e., o filho mais novo de Jeoaquim, que não deve ser confundido com seu tio Zedequias, filho de Jeoacaz, que foi o último rei de Judá]. Estes foram os filhos de Joaquim, que foi levado para o cativeiro [lê-se ’aṣir nem vez de ’Aṣṣîr, como foi apontado pelos massoretas de forma errada]: Sealtiel, Malquirão, Pedaías, Senazar, Jecamias, Hosama e Nedabias. Estes foram os filhos de Pedaías: Zorobabel e Simei.  Estes foram os filhos de Zorobabel:

Mesulão, Hananias e Selomite, irmã deles” (mais uma filha e cinco outros filhos,
segundo o v. 20).

Essa passagem estabelece o fato de que Zorobabel, o governador da província de Judá no tempo de Zacarias (Zc 4.6-9), era filho de Pedaías e, portanto, sobrinho de Sealtiel (irmão mais velho de Pedaías). Mas Esdras 3.2 se refere a Zorobabel como “filho” de Sealtiel; por isso, parece que este havia adotado Zorobabel depois da morte prematura de seu pai natural, Pedaías. (Não há referência à morte prematura de Pedaías em parte alguma, mas essa é a única explicação para o fato de Zorobabel ter sido adotado por Sealtiel. Outras referências a Zorobabel como “filho de Sealtiel” são Ed 3.8; 5.2; Ne 12.1; Ag 1.1.)

Quanto a Sesbazar, Esdras 1.8 diz que Ciro, rei da Pérsia, fez com que seu tesoureiro, Mitredate, devolvesse nas mãos de Sesbazar 5400 peças de prata e de ouro retiradas do templo em Jerusalém, que fora destruído (esse tesouro havia sido pilhado por Nabucodonosor em 587): “… os entregou a Sesbazar, governador [nāśî’] de Judá”. O versículo 11 declara que esses utensílios foram levados em segurança para Jerusalém, por Sesbazar (em 537), quando os israelitas que voltaram iniciaram a construção de uma nova colônia. Mais tarde, Esdras 5.14 registra que os utensílios do templo foram devolvidos por Ciro (sem dúvida por meio de seu tesoureiro, Mitredate) “a um homem chamado Sesbazar, que ele tinha nomeado governador [peḥâh]”.

Podemos tirar duas conclusões dessas evidências: “Sesbazar” é outro nome de Zorobabel, ou de Sealtiel, “pai” de Zorobabel. A primeira tem adeptos fortes, como por exemplo C. F. Keil (Keil e Delitzsch, Ezra, Nehemiah, Esther, p. 27), que sugere ser “Sesbazar” o nome oficial de Zorobabel na corte (assim como Beltesazar era o nome oficial de Daniel [Dn 1.7]). A dificuldade que pesa sobre essa teoria é que “Sesbazar” (provavelmente derivado de Shamash-mar- (u) ṣur, “deus-sol, protege o filho!” que seria o esperado para um nome oficial) não é tão claramente de origem babilônica quanto “Zerubabel” (zērû-Babili, “Semente de Babilônia”). Isso enfraquece a suposição de que um é o nome real, e o outro, o gentílico, atribuído posteriormente.

Há última hipótese, de que Sesbazar era o nome oficial atribuído a Sealtiel, o pai (adotivo) de Zorobabel, apresenta alguns aspectos que a fortalecem. Sealtiel é um nome hebraico genuíno que significa “eu pedi ao Senhor”, ou talvez “meu pedido é Deus”. Por isso não é totalmente inconcebível que Zorobabel ou Sesbazar seja o nome originalmemte dado ao bebê pelos pais, por ocasião da circuncisão, visto que se haviam acostumado aos nomes gentílicos durante o longo cativeiro na Babilônia. No entanto, parece muito mais provável que Sealtiel fosse o nome atribuído originalmente pelos pais hebreus, e Sesbazar seria o da corte, dado a ele mais tarde  pelo governo babilônico. Então, isso significaria que os utensílios do templo foram confiados a Sealtiel-Sesbazar, o idoso pai adotivo (na verdade, o tio) de Zorobabel, pelas autoridades persas. Segue-se naturalmente que Sealtiel recebeu a posição de peḥâh, ou governador, da nova colônia judaica prestes a ser fundada na Judéia, e que ele e seu “filho” Zorobabel participaram do lançamento dos alicerces do segundo templo, em 536 a.C.

Note-se, porém, com todo cuidado, que Sesbazar jamais torna a ser mencionado depois da cerimônia de lançamento dos alicerces (Ed 5.16). O fato pode indicar que ele teria morrido logo após o evento, passando o governo ao seu “filho” Zorobabel que daí em diante talvez passasse a servir como peḥâh (embora em parte alguma isso seja dito a seu respeito). Admite-se que essa hipótese apresenta dificuldades, suposições que não têm o devido apoio. Falta-lhe a simplicidade da primeira hipótese, segundo a qual Sesbazar é apenas o segundo nome de Zorobabel (essa é uma interpretação fortemente defendida por Unger, Bible dictionary, p. 1014). A objeção que se baseia na etimologia dos dois nomes (Sesbazar e Zorobabel) pode não parecer tão forte quanto a necessidade de imaginar que o pai de Zorobabel detinha a honra de ser o governador sênior e de dividir com o filho a honraria de ter lançado a pedra angular do templo, embora não haja a menção de dois líderes tão ilustres participando da cerimônia. Se assim foi, a declaração mais honesta a ser feita é que qualquer dessas explicações resolve o problema da aparente discrepância, mas as evidências disponíveis não apontam com certeza para nenhuma delas em particular.

Antes de deixar esse tópico, devemos acrescentar que se Sesbazar e Sealtiel são a mesma pessoa. Podemos então supor que houve um casamento por levirato. Em outras palavras, de acordo com Deuteronômio 25:5, se um homem morresse sem deixar um filho para a esposa, um irmão sobrevivente (ou um parente mais próximo, caso não tivesse um irmão) tinha o dever de levar a viúva para sua casa e casar-se com ela, para “dar continuidade ao nome do seu irmão”. O primeiro filho que nascesse do casamento por levirato não seria considerado do segundo marido, isto é, do pai biológico, mas do falecido. Então, caso Pedaías houvesse morrido jovem sem deixar herdeiros, Sealtiel teria casado com a cunhada, viúva, e assim se tornado pai biológico de seu primogênito, Zorobabel. Todavia, legalmente, Zorobabel teria sido considerado filho de Pedaías, exatamente como 1 Crônicas 3:19 o declara. No entanto, visto ter sido gerado por Sealtiel e educado por ele, seria conhecido também (não oficialmente) como o filho de Sealtiel.

Permanece uma única dificuldade a ser removida. A genealogia de Lucas (3:27,28) relaciona os seguintes elos dessa corrente humana: AdiMelqui – Neri – Salatiel – Zorobabel – Ressá – Joanã, e os demais. Visto que Salatiel é a forma grega de Sealtiel, e Zorobabel é obviamente Zorobabel, resta saber se existe algum relacionamento entre Sealtiel e Zorobabel (descendentes do rei Josias, da dinastia davídica) e aqueles dois que descendem de Melqui e Neri, na genealogia registrada por Lucas. A resposta deve ser não, pois é impossível que os nomes de Neri e de seus antepassados sejam incluídos na linhagem davídica e que a cronologia em que aparecem esteja errada. Na genealogia que Mateus apresenta de Cristo, Salatiel e Zorobabel correspondem às décima quinta e décima sexta geração depois de Davi,
enquanto na de Lucas Salatiel e Zorobabel representam as vigésima primeira e a vigésima segunda geração depois de Davi. Ainda que às vezes alguns elos sejam omitidos na corrente genealógica de Mateus (como Acazias -Joás – Amazias entre Jorão e Uzias), a discrepância de cinco gerações é difícil de ser aceita.

Então, de que maneira vamos explicar a seqüência de Sealtiel e Zorobabel na linha sucessória de Jeconias (Mt 1.12) e a seqüência de Salatiel e Zorobabel no grupo familiar de Davi, que produziu descendentes a partir de Natã (Lc 3.27-31) até Neri? É certo ser deveras inusitado verse o mesmo par de pai e filho aparecendo em duas linhas familiares distintas; no entanto, há uma analogia interessante que se encontra nos tempos de Acabe e Josafá. Esses reis, durante uma época de relacionamento cordial entre os governos de Judá e Israel, deram a seus filhos os nomes de Jorão e Acazias (2 Rs 1.17 e 8.16; 1 Rs 22.51; 2 Rs 1.1, 2; 8.25). Por isso, é concebível que um descendente do rei Davi chamado Sealtiel, que viveu no período pós-exílico (i.e., Sealtiel, filho de Neri), teria dado a seu filho o nome de Zorobabel, em homenagem ao par tão bem conhecido que conduziu o remanescente do povo de volta a Jerusalém no final do exílio. No milênio anterior, a XII e a XVIII dinastia do Egito tiveram uma série de reis chamados Amenotepe-Senwosret e Amenotepe-Tutmés, respectivamente. Dessa maneira temos precedentes e também analogias na recorrência de pares de pai e filho, no que diz respeito a nomes.

Extraído de: Enciclopédia de Temas Bíblicos – Gleason Archer Jr

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