Fraquezas na Hipótese Documentária

Panorama do Antigo Testamento                     Introdução

O presente artigo, tem como propósito mostrar as fraquezas e falácias da Hipótese Documentária (Wellhausiana), escrita pelo primeiro erudito do AT, que contribuiu para uma enorme influência sobre mim, nesse campo. Gleason Archer Jr, apesar de já ter falecido, foi um dos principais estudiosos do AT no século XX, e trouxe enorme influência principalmente no campo das línguas semíticas, em seu livro (A Survey Old Testament Introduction), título em português (Panorama do Antigo Testamento). No contexto brasileiro, sabemos que temos poucas introduções ao Antigo Testamento, e existe uma dúzia de obras sobre a História de Israel, trabalhando através da (perspectiva crítica) que são publicadas, resenhas em blog e editadas por editoras seculares. Portanto, aqui há uma análise crítica das teorias documentárias, em resposta a algumas novas tendências do estudo do pentateuco no Brasil, que já foram refutadas há mais de 50 anos.

                                                  Fraquezas e Falácias na HP

1. A Teoria Documental tem sido caracterizada por uma espécie sutil de raciocínio em círculos; tende a postular sua conclusão (“a Bíblia não é uma revelação sobrenatural”) como sua premissa básica (“não pode existir algo chamado revelação sobrenatural”). Aquela premissa, é claro, era um artigo de fé para toda a liderança intelectual ocidental na época do Iluminismo (l’Éclaircissement na França, die Aufklãrung na Alemanha) do século dezoito; estava implícito n a filosofia prevalescente do deísmo. Infelizmente, porém, tornou impossível qualquer consideração justa das evidências apresentadas pelas Escrituras da revelação sobrenatural. Além disto, tomou-se absolutamente obrigatório descobrir explicações racionalísticas e humanísticas para cada aspecto ou episódio no texto das Escrituras que tem algo de milagroso ou que testifica a manifestação de Deus. Mas esta tentativa de tratar objetivamente com dados literários do ponto de vista de preconceito antisobrenaturalista se destinava ao fracasso desde o início. É como a tentativa do daltônico de julgar as grandes obras-primas da pintura. A primeira falácia, portanto, era petitio principii (tomar a questão como provada).

2.  Alegava-se que a teoria de Wellhausen se baseava na evidência do próprio texto, mas a evidência do texto é consistentemente evadida quando vai claramente contra as teorias. Por exemplo, os documentaristas insistiam, “Os livros históricos do Antigo Testamento não demonstram que reconhecem a existência da legislação P ou do código mosaico escrito antes do fim do Exílio”. Quando veio a resposta a esta declaração, demonstrando que numerosas referências à Lei Mosaica e às instruções P foram descobertas nos livros históricos, veio da parte deles a réplica: “Ah, bem, estas referências são interpolações posteriores feitas por escribas sacerdotais que reeditaram estes livros depois do Exílio”. Isto quer dizer que o mesmo corpo de evidência ao qual se apela para comprovar a teoria, se rejeita quando entra em conflito com a teoria. Ou, em outras palavras, cada vez que a teoria é desafiada pelos próprios dados que ela alega explicar, então o time capacitado para eliminar dificuldades, Redator e Interpolador Ltda., recebe a chamada de socorro. Táticas ilusórias como estas dificilmente poderiam justificar a confiança e integridade dos resultados.

3.  Os documentaristas pressupõem que os autores hebraicos são diferentes de quaisquer escritores conhecidos em toda a história da literatura pelo fato de só eles não possuírem a capacidade de empregar mais do que um nome para Deus; mais do que um só estilo de escrita, seja qual for a diferença no assunto tratado; mais do que um entre vários sinônimos da mesma idéia; mais do que um tema típico ou círculo de interesse. Segundo estas teorias, um autor único como (citando um exemplo brasileiro) Rui Barbosa não poderia ter escrito pesquisas literárias, como Ensaio sobre Swift, reportagens vivas e cintilantes da atualidade da época, como em Cartas da Inglaterra, e ainda a grande obra de polêmica religiosa, que é sua versão de “O Papa e o Concilio”. Se tivesse sido um hebreu antigo, decerto suas obras já teriam sido mutiladas, dentro da hipótese das fontes múltiplas, A, B e C! A estrutura inteira da divisão das fontes foi construída sobre pressuposições exclusivistas que não são demonstradas na literatura de nenhum a outra nação e de nenhum outro período.[1]

4. Preconceitos subjetivos se revelaram no tratamento das Escrituras hebraicas como evidência arqueológica. Por demais freqüentemente a tendência tem sido considerar qualquer declaração bíblica como sendo suspeita e indigna de confiança, embora que a própria antiguidade do Antigo Testamento (mesmo pelas datas atribuídas pelos críticos) deveria recomendá-lo para ser considerado como documento arqueológico. No caso de qualquer discrepância, na comparação com uma fonte pagã, mesmo sendo de data posterior, automaticamente a informação pagã tem a preferência como testem unha histórica. Quando não há outras evidências disponíveis de fontes não israelitas ou de algum tipo de descoberta arqueológica, então a declaração bíblica não é levada a sério a não ser que possa ser encaixada com a teoria. Não faz diferença para eles o grande número de informações bíblicas que, rejeitadas como não históricas pelos peritos do século dezenove, têm sido confirmadas pela evidência arqueológica posterior (como a historicidade de Belsazar, os Heteus e os Horeus), a mesma atitude de preconceito prejudicial contra a Bíblia tem persistido, sem a mínima justificativa. (Seria uma ingenuidade supor que os relatórios pagãos do Egito, da Babilônia e da Assíria — em contraste com as Escrituras hebraicas com seus elevadíssimos padrões morais — eram livres de tendências propagandistas ou preconceitos partidários) . W. F. Albright tem o crédito de ter dirigido uma boa parte dos seus esforços eruditos no sentido de reabilitar a reputação do Antigo Testamento como registro do passado no qual se pode confiar. Em numerosos livros e artigos, demonstrou, repetidas vezes, que a narrativa Bíblica tem sido vindicada contra seus crí­ticos, pela descoberta arqueológica recente.

5.  A escola de Wellhausen começou com a mera suposição (a prova da qual não tem sido alvo c\e muitos esforços da parte deles) que a religião de Israel era de origem meramente humana  como qualquer outra, e que precisava ser explicada como mero produto da evolução. Não fazia diferença para eles que nenhum a outra religião conhecida (a não ser aquelas que surgiram da fé dos hebreus) tem chegado ao monoteísmo genuíno; os israelitas também devem ter começado com animismo e politeísmo cru, exatamente como as demais culturas antigas. A evidência esmagadora em contrário, desde Gênesis até Malaquias, que a religião israelita era monoteísta desde o começo até ao fim tem sido evadida nos interesses dum dogma preconcebido: que não pode existir aquilo que se chama religião sobrenaturalmente revelada. Por este motivo, todas as narrativas simples e diretas em Gênesis e no restante da Torá que descrevem as experiências de Abraão, Isaque, Jacó e Moisés têm sido sujeitadas a um a reanálise cínica, procurando demonstrar que um retoque monoteístico foi aplicado àqueles antigos dignitários politeístas pelos assim-chamados “Deuteronomistas” ou a escola Sacerdotal de épocas posteriores.[2]

6.  Quando, por meio de manipulação engenhosa do texto, se produz uma “discrepância” ao interpretar um a passagem fora do contexto, não se aceita nenhum a explicação que reconciliaria a dificuldade, mas, pelo contrário, a suposta discrepância precisa ser explorada para “comprovar” diversidade de fontes. (Cf. a discrepância que Pfeiffer imaginava ver (IOT 328) entre duas narrativas do assassínio de Sísera. Segundo ele, Juizes 5:25-27 diz que Jael o matou com seu martelo e estaca de tenda enquanto bebia leite; Juizes 4:21 diz que o fez enquanto Sísera dormia. Na realidade, 5:25-27 não, declara que estava bebendo no momento do impacto, mas seria inútil dizer isto a Pfeiffer, pois já dividiu as “narrativas discrepantes” entre J e E).

7.  Embora as literaturas semíticas antigas demonstrem numerosas instâncias de repetição e de duplicação pelo mesmo autor na sua técnica de narrativa, é somente a literatura hebraica que não tem licença de empregar tais repetições ou reduplicações sem trair um a autoria diversa.[3]

É instrutivo estudar a literatura sectária das cavernas de Cunrã, para perceber até que época os israelitas continuavam a empregar a repetição com o propósito de enfatizar. Por exemplo, compara-se placa I com placa IV do Manual de Disciplina[4] onde os requisitos para se entrar na comunidade monástica são esclarecidos de tal m aneira que convidaria os serviços peritos do divisor de fontes documentárias.

8.  Com auto-confiança altamente questionável, a escola de Wellhausen presumiu que críticos europeus modernos, que não têm em mãos nenhum a outra literatura antiga hebraica com a qual possam fazer comparações (pelo menos, quanto ao período bíblico), podem fixar a data da composição de cada documento, com exatidão científica. Supõem também que podem ter a liberdade de emendar o texto ao substituir palavras mais comuns pelas palavras raras ou incomuns preservadas no texto massorético, que eles não entendem, ou que não acham cabíveis no contexto. Como estrangeiros, vivendo num a época e num a cultura totalmente diferentes, se sentiam competentes para lançar no descarte ou reembaralhar frases ou até versículos inteiros quando seus conceitos ocidentais de consistência ou de estilo foram ofendidos.

9.  Supuseram, além disto, que estudiosos vivendo 3.400 anos após o evento pudessem (mormente na base de teorias filosóficas) reconstruir com mais segurança a ordem dos acontecimentos da época do que os próprios autores antigos (que viviam dentro de 600 ou 1.000 anos daqueles eventos, mesmo pelas datas avançadas que os próprios críticos dão).

Em resumo, é muito duvidoso se a hipótese de Wellhausen mereça a posição de respeitabilidade científica. Há tantas alegações forçadas para pleitear a causa, tantos argumentos em círculo, tantas deduções questionáveis tiradas de premissas não substanciadas, que é absolutamente certo que sua metodologia nunca subsistiria num foro jurídico. Quase nenhum a das leis de evidência que se respeitam em procedimentos legais se obedece entre os arquitetos da Teoria Documental. Qualquer advogado que procurasse interpretar um testamento ou estatuto ou escritura de transferência de propriedade pela maneira estranha e irresponsável destes crí­ticos das fontes do Pentateuco, teria curto prazo para ver sua causa rejeitada pela corte. Compare-se, por exemplo, esta declaração pelo Juiz William Dixon, de Passadena, Califórnia, no caso duma constituição proposta para um a união entre igrejas (“Pilgrim Frontier”, Junho 1960, p. 4): “É fato elementar que na interpretação dum contrato escrito, todas as partes escritas devem ser lidas em conjunto, e cada parte interpretada com referência à totalidade, de maneira a tornar eficaz em prol do propósito geral, cada provisão ali contida”.[5]“Decerto, este princípio é relevante até para as porções não-legais das obras de Moisés. Se tivesse sido obedecido na aná­lise do Pentateuco, a Hipótese JEDP teria sido uma impossibilidade.

                                                            Conclusão

Deve ser notado que o processo do aumento no estudo do Pentateuco no Brasil tem crescido nos últimos anos. O Brasil de fato, possui uma filiação das teorias alemães de Julius Wellhausen, isto é notável pelos conteúdo distribuído nas de Escolas de Teologia, que oferecem cursos de Introdução ao AT, exatamente com obras escritos do ponto vista racionalista alemão. Recomendo a todos, esta maravilhosa obra (Panorama do Antigo Testamento – Gleason Archer) lançada pela editora Vida Nova. Deve se notar, que nessa nova edição, o estudo original de Archer foi atualizado por Dillon Burroughs.

Por Jean Carlos

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

[1]  Uma crítica desta metodologia artificial do ponto de vista dum estudioso clássico acha-se no cap. 9, p. 144-146, e na referência a Domseiff.

[2] Uma refutação excelente desta abordagem das religiões comparadas encontra-se em The Old Testament Against its Environment (1950). Apesar de ser um defensor moderado da Teoria Documentária, foi convencido pela evidência arqueológica de que os hebreus eram realmente os únicos, na sua aceitação ao monoteísmo, e na sua fidelidade ao conceito em face da oposição dos seus vizinhos idólatras.

[3] Ver a referência no cap. 6, p. 89, a comparação de técnicas hebraicas de narrativa, comparadas com as dos árabes, feita por Ewald.

[4] Millar Burrows, The Dead Sea Scrolls (1955) págs. 371, 376.

[5] William Dixon, em Pilgrim Frontier (junho, 1960) p. 4.

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