O livro de Isaías na Luz dos Rolos do Mar Morto

Resultado de imagem para Pergaminho de Isaías

Apresenta-se, portanto, uma introdução aos manuscritos do Mar Morto, focalizando os rolos de Isaías e seu valor quanto ao texto crítico do mesmo (o qual representa o melhor esforço dos eruditos para chegar ao texto originai), para depois chamar-se atenção às leituras alternativas de porte, oferecidas pelos rolos, as quais servem — segundo nosso juízo, na maioria dos casos acompanhado do juízo de eruditos de renome e tradutores de versões em português e inglês — para esclarecer o texto da profecia. Não se deve sugerir que em todas as instâncias há um consenso de opinião, mas pode-se afirmar que a escolha tem fundamento no juízo de outros, além do autor deste artigo.

Em 11 grutas diferentes nas rochas da colina de Qunrã, a 13 km ao sul de Jericó, na margem ocidental do Mar Morto, foram encontrados, a partir de 1947 até 1956, manuscritos e fragmentos de manuscritos em forma de pergaminhos escritos em hebraico, outros em aramaico e ainda outros em grego. Todos datam desde o 2º século a.C. até imediatamente antes da destruição romana de Jerusalém, em 68-70 d.C.[1] Os manuscritos pertenciam a uma comunidade judaica da seita dos essênios. Segundo W. F. Albright, os primeiros palestinos essênios vieram da Babilônia, no período do 3º ao 2º século a.C., bem provavelmente durante o tempo do segundo século, quando os macabeus reconquistaram a independência política dos judeus da Palestina. Os essênios eram um grupo apocalíptico, ascético, celibatário e dualístico. Os achados mostram uma profunda influência do zoroastrismo iraniano com seu dualismo de divindades e forças.[2] É bom notar que havia uma grande colônia de judeus na Babilônia, mesmo depois da volta do grupo, em 537 a.C., que ocorreu como resultado do decreto de Ciro, e que foi lá, durante o exílio babilônico dos judeus, que grande parte do A.T. tomou a sua forma final.

Entre os primeiros a serem descobertos, há dois manuscritos hebraicos do livro de Isaías. Eles lançam luz sobre o texto primitivo de Isaías e estão entre os manuscritos mais antigos do texto hebraico do A.T., embora não sejam os mais antigos propriamente ditos. É fato que a mera antiguidade de um manuscrito não serve para estabelecer a sua importância quanto à autenticidade do texto nele contido. Todavia, estes dois (há outros fragmentos de Isaías, descobertos posteriormente em Qunrã e Murabba’at, local distante 18 km ao sul de Qunrã, mas eles não têm o valor desses dois e, de modo geral, são muito fragmentados)[3] têm se estabelecido como testemunhos muito importantes da qualidade autêntica do texto crítico tradicional, a saber, o Texto Massorético (TM), e do provável texto primitivo.

O primeiro destes dois é um rolo que contém todo o livro de Isaías, que tem como sigla técnica lQIsaa, ou Qa. O segundo manuscrito é fragmentado e contém principalmente porções dos capítulos 38-66, incluindo, com muitas lacunas, porções dos capítulos 10-37.[4] A sigla do segundo é lQIsab, ou Qb . A maioria dos eruditos atuais pensa que lQIsaa foi escrito no período entre 150-100 a.C., enquanto lQIsab é um pouco posterior, talvez até na primeira metade do 1º século d.C.[5]

lQIsaa mostra um texto do tipo popular, que apoia essencialmente o TM, mas também oferece cerca de 1.375 leituras diferentes do TM, além de cerca de 4.500 variantes ortográficas.[6] Entretanto, deve-se entender que, de acordo com a maioria dos eruditos, estas leituras diferentes envolvem apenas algumas divergências grandes de sentido. De modo geral, as divergências apoiam a Setuaginta, enquanto, via de regra, o manuscrito apoia o TM. Às vezes, há acréscimos ou omissões de palavras, frases curtas ou letras,[7] e divisão errada de palavras.[8] Ê importante notar a avaliação de Albright no sentido de que, em contraste com outros manuscritos e fragmentos de Qunrã, “temos um número de soletragens, absolutamente corretas, de nomes e palavras assírio-babilônicas (em que w se usa a denotar u ou o), embora a tradução grega de Isaías na Setuaginta e a tradição oficial judaica da Massora dêem vocalizações errôneas. Este rolo — ou mais provavelmente um rolo do qual foi direta ou indiretamente copiado — deve ter vindo da Babilônia, onde a traição cuneiforme escolástica ainda esteve viva até o fim do 1º século d.C.[9]

lQIsab segue mais de perto o TM, mostrando poucas divergências de porte. Ele parece seguir a tradição palestina do texto.[10]

 A importância destes rolos do Mar Morto pode ser vista no fato de que, antes da sua descoberta, o mais antigo manuscrito hebraico do A.T. completo datava de 1.008 d.C. É o de Liningrado, no qual se baseia o melhor texto crítico atual, A Bíblia Hebraica Stuttgartênsia. Outro, o de Cairo, provém de 895 d.C., mas contém somente os livros proféticos anteriores e posteriores. Existe também o de Alepo, proveniente de 950-900 d.C., que contém quase todo o A.T., mas somente nos últimos anos tornou-se acessível aos eruditos. Ele será a base de uma nova edição crítica da Bíblia Hebraica, a ser publicada pela Universidade Hebraica em Jerusalém.[11] Além destes manuscritos, havia a Setuaginta (uma tradução grega), preparada entre 250 a 100 a.C.; a Vulgata (uma versão latina), que data do período entre 385 e 420 d.C.; e outras versões antigas.[12] Assim, os rolos de Isaías, de Qunrã, apresentam testemunhos do texto primitivo de Isaías e são cerca de 1.000 anos mais antigos do que qualquer outro manuscrito acessível antes da sua descoberta. Seu aspecto mais importante é a demonstração da autenticidade fundamental do TM, implicando, assim, nos cuidados reverentes dos copistas, através de séculos de transmissão do conteúdo e na providência divina atuante ao preservar os livros do A.T. para a posteridade.

Será que estes rolos de Isaías mostram algo a respeito da autoria do livro? O rolo completo tem uma lacuna de três linhas entre os capítulos 33 e 34, mas nada entre os capítulos 40 e 41.[13] Dois tipos de texto apresentam-se no rolo, dividindo o livro em duas metades precisas, a saber, os capítulos 1 —33 e 34—66. As formas plenas feitas com letras vocálicas e as formas de sufixos plenos encontram-se mais frequentemente na primeira metade do que na segunda. Portanto, ou um só escriba copiava de dois exemplares diferentes ou havia dois escribas com características diferentes trabalhando ao mesmo tempo com um só exemplar.[14] Cita-se o juízo equilibrado de F. F. Bruce sobre a questão de evidência de autoria: “Para esta questão, o rolo de lQIsaa não proporciona nenhuma evidência além do que já era conhecido antes”.[15]

Agora, chama-se atenção para as principais luzes sobre o texto hebraico de Isaías, provenientes destes rolos.

  • Embora as versões brasileiras tenham quase acertado — aparentemente na base de algumas antigas versões — o sentido de uma leitura em Is 2.20, o TM é bem obscuro a respeito. Trata-se da frase traduzida como “às toupeiras” , a qual no TM, compõe-se de duas palavras que literalmente têm o sentido de “aos buracos dos escavadores” . lQIsaa traz a leitura certa, onde as consoantes dessas duas palavras são unidas para formar uma só palavra com sentido de “aos musaranhos”.[16] O rolo também mostra outra desinência para a palavra, tornando-a masculina plural ao invés de feminina plural.
  • Falta a última palavra de Is 3.24 no TM, o que tem ocasionado, para os tradutores, problemas mais sérios do que o caso acima. lQIsa3 tem a palavra vergonha para suprir a lacuna na redação do TM. Portanto, a última oração deve ser assim: “E em lugar de formosura vergonha”, sendo que as leituras variadas das novas versões representam conjecturas perante um texto difícil.
  • A última oração de Is 7.1 no TM tem o verbo na terceira pessoa do singular, assim proporcionando a seguinte redação: “Mas não a pôde conquistar”. Mas o sujeito do verbo no TM está no plural. Certamente, isto não cria um grande problema, porque no hebraico bíblico, muitas vezes, embora nem sempre, usa-se um sujeito no plural com verbo no singular. Por outro lado, é razoável a redação de lQIsa neste caso, pois traz o verbo no plural para, assim, fazer concordância entre os dois. As nossas versões tinham procedido com base na exceção à regra de concordância, mas agora, o manuscrito antigo assegura o procedimento pela redação “mas não a puderam conquistar”.
  • A última oração de Is 7.14 no TM é literalmente traduzida “e ela chamará o seu nome Emanuel”, a qual se mostra problemática para os tradutores de nossas versões que têm duas traduções não literais: “lhe chamará Emanuel” e “será o seu nome Emanuel”. A citação do trecho em Mt 1.23, com base na Septuaginta, é dada como “eles chamarão o seu nome Emanuel”, sendo, assim, mais ou menos equivalente â redação impessoal ou possivelmente na voz passiva, de lQIsa3: “E se chamará” ou seja, “E será chamado o seu nome Emanuel” . As nossas versões, portanto, não seguem a redação literal do TM, mas suas opções feitas, em alguns casos antes do surgimento do rolo de Isaías, confirmam-se pela leitura do mesmo.
  • A última oração de Is 14.4 é obscura no TM. A edição revista e corrigida da Imprensa Bíblica Brasileira traduziu-a da seguinte maneira: “A cidade dourada acabou”. Uma tradução literal de lQIsaa seria “a fúria insolente cessou”, que a versão nova da Imprensa Bíblica Brasileira, juntamente com a edição revisada e atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil, traduz por “como cessou a tirania”, ou seja, no caso da última, “como acabou a tirania”. Pode-se verificar, então, que as duas versões brasileiras mais recentes optaram pela redação do rolo de Isaías que esclarece uma palavra não inteligível do TM.
  • Na última oração de Is 14.30 no TM se lê “e ele matará o teu restante” , o que não tem um sentido satisfatório à luz do contexto. lQIsaa proporciona uma redação superior, que é apoiada pelas antigas versões latinas: “Mas farei morrer de fome a tua raiz, e eu matarei o teu restante”. Assim, essa oração mostra um paralelismo com a anterior, seguindo o costume de trechos poéticos vétero-testamentários. Também, esta redação do rolo do Mar Morto proporciona um sentido que satisfaz. Parece lamentável, então, que nenhuma das versões brasileiras tenha optado por essa redação.
  • A primeira oração de Is 15.9 no TM traz a redação “pois as águas de Dimom estão cheias de sangue’’ , enquanto lQIsaa contém a redação que seria mais comumente esperada por aqueles que conhecem a geografia vétero-testamentária: “Pois as águas de Dibom estão cheias de sangue” , como encontra-se em 15.2. Não é conhecido nenhum lugar em Moabe, o assunto do capítulo 15, por nome de Dimom, mas Dibom é bem conhecido (cf. Nm 32.33-34). Por outro lado, é bem provável que o autor de Is 15.9 tenha escrito Dimom, ao invés de Dibom, para fazer um trocadilho relacionado à palavra hebraica sangue, encontrada na oração e que soa bem semelhante a Dimom[17], isto em face de ele ter especificado Dibom no versículo 2. Aparentemente por tal razão, os tradutores das versões brasileiras optaram pela redação do TM neste caso.
  • A primeira oração de Is 21.8 no TM é bem problemática, sendo que a edição revista e corrigida traduz por “e clamou como leão”. A nova versão da Imprensa Bíblica preferiu seguir lQIsaa: “Então clamou aquele que viu”. Essa redação do rolo encaixa-se bem com o sujeito do verbo explicitado no versículo anterior, a saber, “a sentinela” , a qual seria o antecedente de “aquele que viu” na oração em pauta. Além disso, essa redação faz sentido, o que não acontece com a do TM.
  • A segunda parte do Is 23.2 no TM é muito confusa: “Um mercador de Sidom passando sobre o mar, eles o encheram” . lQIsaa oferece o que parece uma redação mais cabível com o contexto: “Ó mercadores de Sidom, os seus mensageiros passavam sobre o mar, e estavam sobre muitas águas” . Aparentemente, a nova versão da Imprensa Bíblica, e a edição revista e atualizada da Sociedade Bíblica Brasileira optaram pela tradução conjectural da edição revista e corrigida, com base na regra da crítica textual de que, muitas vezes, a leitura mais difícil é a mais autêntica.[18] Parece, entretanto, ser mais razoável optar pela redação de lQIsaa, embora possa não ser a original. Ela é bem antiga, faz melhor sentido do que a redação conjectural das nossas traduções e encaixa-se bem no contexto, especialmente com o v. 3.
  • A terceira oração de Is 24.6 no TM contém uma palavra bem difícil, a qual, segundo a pontuação do próprio TM, leva a tradução conjectural de “por isso são queimados os seus habitantes, e poucos homens restam” , assim traduzida pela nova versão da Imprensa Bíblica, enquanto a versão referida acima, da Sociedade Bíblica, é bem semelhante. Nem os próprios rolos do Mar Morto servem para elucidar o sentido dessa palavra obscura, mas surgiu nos últimos anos uma tese basicamente segura e refletida no aparato crítico da Bíblia Hebraica, sexta edição, editado por R. Kittel. Alfred Guilliaume, especialista em árabe, língua cognata do hebraico, apontou para o fato de que esta mesma raiz (palavra), no árabe, tem o sentido de decimados.[19] Esta tradução faria um sentido mais razoável do que o tradicional, como se pode verificar da seguinte versão: “por isso são decimados os seus habitantes, e poucos homens restam” . A tradução também encaixa-se no paralelismo evidente entre as duas linhas.
  • Is 28.1 traz a seguinte colocação a respeito dos bêbados do reino do norte: “Ai da vaidosa coroa dos bêbados de Efraim, e da flor murchada do seu glorioso ornamento, que está sobre a cabeça do fértil vale dos vencidos do vinho”. A última frase, a saber, “a cabeça do fértil vale dos vencidos do vinho” não tem um sentido claro, mas sim, difícil. É esta a redação do TM, mas lQIsaa emprega outra palavra em vez de “vale”, a qual é diferente em forma somente pelo posicionamento posterior de uma consoante. O léxico editado por Holladay prefere a redação do rolo do Mar Morto, traduzindo a palavra por “os arrogantes”, dando assim, sentido mais condizente ao trecho: “que está sobre a cabeça dos arrogantes ricos vencidos pelo vinho”.[20]Desta maneira, os bêbados de Efraim são os arrogantes ricos vencidos do vinho, ao qual se davam na sua luxúria. Esta tradução também deve ser dada à mesma frase em 28:4.
  • A quarta oração de Is 33.8 no TM traz a redação “as cidades são desprezadas”, porém lQIsaa contém “testemunhas se desprezam” , segundo a tradução da nova versão da Imprensa Bíblica, que adotou a leitura de Qunrã. Mais uma vez, constata-se que as duas palavras em questão são quase iguais no hebraico e a diferença encontra-se numa só consoante da palavra (cf. número 11 acima). Seria, para o português, a diferença entre as letras D e R, sendo que as duas formas são bem semelhantes no hebraico. A redação de lQIsaa concorda com o sentido da oração anterior e da posterior; as três, então, expressam ideias semelhantes: alianças rompidas, testemunhas desprezadas e o não fazer caso dos homens.
  • 1QIsaa também serve para esclarecer uma redação desajeitada no TM de Is 40.6. O verbo geralmente traduzido por “alguém disse” ou “alguém pergunta” está na terceira pessoa do singular no TM, mas no rolo do Mar Morto está claramente na primeira pessoa do singular e isto é mostrado através de uma letra vocálica (o uso de certas consoantes para indicar naqueles dias). Toma-se claro, desse modo, que quem fala é definido como sendo o próprio profeta, ao invés de uma obscura “voz”. A nova versão da Imprensa Bíblica adotou a redação de lQIsaa e a traduz da seguinte maneira: “Uma voz diz: “Clama. Respondi eu: Que hei de clamar?” Deve-se notar que o tradutor desta porção na Septuaginta, da época de 250-100 a.C., contava com um manuscrito hebraico que tinha mesma redação encontrada no manuscrito do Mar Morto.
  • A primeira oração de Is 40.12 no TM traz uma redação meio indefinida: “Quem mediu com o seu punho as águas”! lQIsaa contém uma redação definida: “Quem mediu com o seu punho as águas do mar”? Míllar Burrows tinha suas dúvidas a respeito da aceitação dessa redação, citando Orlinsky, no sentido de que falta o artigo na construção, o qual seria normalmente usado antes da palavra “mar” no hebraico.[21] F.F. Bruce, por outro lado, deu preferência à esta redação.[22] Parece que a restrição baseada na ausência do artigo não é um grande impecilho, pois há numerosos exemplos de tais fenômenos mesmo no TM, os quais são reconhecidamente, o trabalho paciente e meticuloso dos escribas massoréticos através dos séculos, num esforço para preservar fielmente o texto recebido do passado. O rolo lQIsaa, por outro lado, representa um texto do tipo popular, não tão acadêmico como o TM, que surgiu antes da padronização do modelo do texto.[23]
  • A primeira parte de Is 41.27 no TM traz uma redação impossível em face do restante do versículo: “Primeiro a Sião: ei-los \ e a Jerusalém um mensageiro de boas novas eu darei” . A Setuaginta e a Vulgata encontram problemas aqui, o que se comprova pelas traduções diferentes: “Eu farei Sião primeiro”, ou seja “Eu darei a Sião reinado” (LXX); “O primeiro dirá a Sião: “Ei-los aqui” (Vulgata). As traduções brasileiras mostram, também, uma redação conjectural da primeira parte. A edição revista e atualizada no Brasil diz: “Eu sou o que primeiro disse a Sião:Eis! eilos-aí! e a Jerusalém dou um mensageiro de boas novas” . A versão segundo os melhores textos em hebraico e grego também tenta escapar da dificuldade por meio da seguinte tradução: “Eu sou o que primeiro direi a Sião: Ei-los, ei-los; e a Jerusalém darei um mensageiro que traz boas novas” . lQIsaa traz uma redação única no A.T. que difere do TM somente pelo acréscimo de duas letras à palavra traduzida por “los” , um pronome, em nossas versões. As letras são uma letra vocálica, indicando a pontuação de um particípio e uma consoante final, a qual mostra que estamos tratando de uma forma verbal de certa raiz. Este verbo nunca mais aparece no A.T., nem em outra literatura hebraica a nós acessível. Alfred Gullaume, mais uma vez, aponta para uma solução com base no verbo cognato no árabe que tem o sentido de “trazer notícias”, ou seja, “boas novas”.[24] Assim entendido, o verbo tem um sentido bem paralelo à segunda linha do versículo: “Primeiro a Sião, eis, quem traz notícias; e a Jerusalém um mensageiro de boas novas eu dou”.
  • A terceira oração de Is 45.8 no TM tem a redação “abra-se a terra e produzam a salvação”, enquanto lQIsaa traz algo um pouco diferente: “abra-se a terra e brote a salvação” . Tratam-se de verbos de raízes parecidas, mas diferentes em sentido. Trata-se ainda de um verbo na terceira pessoa no plural e de outro na terceira pessoa do singular. A concordância entre o verbo e o seu sujeito é melhor servida pela redação do rolo do Mar Morto. Também, a figura da terra se abrindo para “produzir a salvação” , embora se admita que a segunda figura não é alheia ao modo de falar do AT. A nossa escolha se faz basicamente com base na melhor concordância indicada por lQIsaa.
  • “E aqueles outros da terra de Sinim”, última frase de Is 49.12 no TM, tem proporcionado incerteza a respeito da identidade de “Sinim Agora, com a soletragem da palavra Sinim, encontrada em 1QIsaa e com o acréscimo de duas letras vocálicas, tem sido possível fazer a identificação com certeza. É a terra de “Siene”, a saber, nome bíblico da moderna cidade de Asuan, uma cidade egípcia perto da primeira catarata do Nilo, ao sul do Egito.[25] A frase, então, teria a ideia da volta do povo salvo até do extremo sul.
  • Is 49.17 no TM começa da seguinte maneira: “Os teus filhos pressurosamente virão”, mas lQIsaa tem “os teus edificadores pressurosamente virão”, A diferença de redação entre os dois textos é simplesmente questão de pontuação. O rolo do Mar Morto acrescenta uma letra vocálica que indica o sentido de “edificadores”. Esse sentido é condizente com o sentido do versículo todo, fazendo um paralelismo de contraste com a segunda parte da afirmação: “Os teus edificadores pressurosamente virão; mas os teus destruidores e os teus assoladores sairão do meio de ti”. O contexto mostra que o assunto é Sião (v. 14). O versículo 15 fala em Sião sob a figura de u’a mãe e os seus filhos, o que teria levado os tradutores das versões brasileiras a optarem pela redação do TM. Mas o versículo 16, na sua parte que vem imediatamente antes da palavra em pauta, tem uma redação que sugere “edificadores”, ao invés de “filhos”; “os teus muros estão continuamente diante de mim”, isto é, Deus sempre levava em conta a necessidade de serem reedificados os muros destruídos de Sião. Isto, para se cumprir, exigiria “edificadores” . O rolo do Mar Morto é apoiado, nesta redação, pela Setuaginta, Vulgata, versão grega de Teodociano e os Targuns (traduções do hebraico para o aramaico.
  • A última oração de Is 49.24 no TM traz uma redação muito improvável em face do versículo seguinte: “Serio libertados os cativos de um justo?” enquanto a oração paralela do versículo 25 diz: “A presa do tirano será libertada”. lQIsaa tem a palavra tirano nos dois lugares, sendo apoiado pelas versões Siríaca e latina e, de certa forma, pela Setuaginta. É interessante notar que a edição revista e corrigida da Imprensa Bíblica, mesmo antes do surgimento do rolo do Mar Morto, optou por seguir as versões antigas, ao invés do TM. A edição revista e atualizada no Brasil, tanto como a edição segundo os melhores textos em hebraico e grego, têm também a redação sugerida pelo rolo do Mar Morto.
  • A última linha de Is 51.19 no TM é lida da seguinte maneira: “Quem eu te consolarei?” Esta leitura literal impossível pode ser suavizada notando-se que a palavra de interrogação pode também ser traduzida por “como”. lQIsaa, apoiado pelas versões antigas, contém aquela que deve ser a redação certa: “Quem te consolará”? O verbo está na terceira pessoa do singular e encaixa-se com o sentido mais frequente da interrogação “quem”. Deve-se notar também que, assim lido, o verbo mostra um paralelismo de construção e de pensamento com a interrogação no fim da primeira linha do versículo: “Quem terá compaixão de ti?”.
  • A segunda oração (linha do texto hebraico) de Is 52.14 no TM contém uma palavra muito difícil, que as versões brasileiras e inglesas geralmente têm traduzido por “desfigurado” e “marred”. As antigas versões Siríaca e Vulgata e alguns Targuns acharam que a forma hebraica provinha de uma raiz diferente daquela normalmente suposta pelas nossas versões. Assim, elas a traduziram no sentido de “ferida”. A própria forma do TM pode provir de duas raízes hebraicas diferentes, uma significando “ungir” e a outra, tradicionalmente preferida, designando “desfigurar”. lQIsa3 traz “pois eu tenho ungido o seu aspecto mais do que um homem”, optando claramente pela raiz “ungir” . Barthélemy entendeu a afirmação no sentido de “pois eu o tenho ungido, de maneira que o seu aspecto excede o de um homem” . Nõtscher aceitou essa interpretação e apontou para o fato de que a forma do verbo “desfigurado” ocorre no TM unicamente neste trecho. J. Reider e Arie Rubinstein mostraram que esta pode ser uma forma incomum da raiz “desfigurar”, e que a ideia da unção do aspecto de uma pessoa parece intrinsicamente improvável para um escriba essênio.[26]Alfred Guillaume propôs outra explicação baseada em seu entendimento da língua cognata árabe, segundo a qual a raiz da forma em lQIsaa seria outra do que a comumente entendida, com as mesmas consoantes da raiz “ungir” mas com sentido de “tornar feio” ou “desfigurar”. Com esta base, a forma encontrada no rolo do Mar Morto seria traduzida por “eu tenho desfigurado”. Seria diferente do sentido tradicional somente por estar na voz ativa, ao invés de na voz passiva.[27] Portanto, esta segunda oração e aquela que a segue seriam traduzidas da seguinte maneira: “Pois eu tenho desfigurado o seu aspecto mais do que o de outro homem, e a sua aparência mais do que a dos outros filhos dos homens” . Em Is 53.1, a segunda linha, IQIsaa esclarece o nosso entendimento quanto à preposição comumente traduzida por “a” na frase “a quem” , literalmente, ela tem o sentido de “sobre”, e, portanto, os nossos tradutores têm “emendado” o TM a esta altura. O rolo do Mar Morto contém uma outra preposição semelhante, cujo sentido é literalmente “a”, ou seja “para” .
  • A última oração de Is 53.8 afirma a respeito da morte do Servo do Senhor: “Por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido” (edição revista e atualizada no Brasil). Esta tradução reflete adequadamente a redação do TM. Chama-se atenção ao pronome empregado na frase “do meu povo” , porque lQIsaa traz outro pronome, a saber, o da terceira pessoa do singular, fazendo com que a oração tenha outra redação e outro sentido. A tradução certa, portanto, seria: “Por causa da transgressão do seu povo foi ele ferido”. Não é, então, o povo do próprio profeta e, sim, o do Servo do Senhor. Segundo o entendimento de Frederick Alfred Aston, a frase “seu povo” toma insustentável a tese que identifica o Servo do Senhor com Israel no trecho maior de Isaías 52.13 — 53.12. “Seu povo” claramente indica que Israel é o povo pelo qual “ele”, o Servo do Senhor, foi ferido. Também, se o Servo fosse a nação de Israel, como poderia ser ferido por Israel? Assim, com base na leitura do rolo do Mar Morto, Aston argumenta que o Servo do trecho maior é realmente um indivíduo, o Messias.[28]
  • Em Is 53.9 no TM encontra-se a seguinte redação literalmente traduzida: “E ele fez com os ímpios a sua sepultura, e com um rico na morte dele”. lQIsaa tem algo diferente que, uma vez bem entendido, esclarece o sentido do trecho: “E eles fizeram com os ímpios a sepultura dele, e com ricos o lugar alto dele” . Note-se que o primeiro verbo está na terceira pessoa do plural no rolo do Mar Morto, o que se encaixa bem com as tentativas de emendas dos nossos tradutores ao acharem que o sentido do verbo no singular não era certo. Considere-se, também, “com os ricos o lugar alto dele”. É óbvio que o plural “ricos” cabe melhor no contexto que o singular do TM, especialmente pelo fato de a palavra paralela na linha anterior, “ímpios”, estar no plural. Deve-se notar ainda que, muitas vezes, no AT, os termos “ímpios” e “ricos” são quase sinônimos (cf. SI 73.12; Pr 28.2; Is 5.8,11 -13; Am 2.6-8; 6.4-6; 8.4-6). Deve-se lembrar também que a esta altura da interpretação não se deve abordar o trecho só com base no sentido que ele tem em relação a Jesus, porque, agora, estamos em busca do seu sentido primitivo em face do seu fundo histórico, o qual seria, por sua vez, o fundamento da aplicação do trecho ao Messias. As pesquisas de Albright o têm levado à conclusão de que “o lugar alto” dos povos pagãos da antiga Palestina era um santuário ligado, não somente ao culto dos deuses pagãos, mas também ao culto dos mortos. Em relação a Israel, influenciado até certo ponto, pela cultura cananeia, o lugar alto teria sido muitas vezes, senão comumente no caso dos ricos, o lugar de sepultura. Assim, o paralelismo entre “sepultura” , na primeira linha de Is 53.9 e “lugar alto” , na segunda, seria evidente. O rolo do Mar Morto bem poderia ter a redação original,[29] sendo que “morte” do TM expressaria a ideia essencial da original e seria uma espécie de “revisão dinâmica” para uma geração posterior, fora da Palestina antiga.
  • A primeira linha de Is 53.11 no TM diz o seguinte: “Do trabalho (labuta, aflição) da sua alma, ele verá, ele ficará satisfeito”. As versões modernas suprem a frase “do fruto” aparentemente por estar implícita a ideia. É interessante que ambos os rolos do Mar Morto, lQIsab , contêm a palavra “luz” imediatamente após “ele verá”, dando assim, um sentido completo à linha do texto. Parece que esta palavra fazia parte do texto original pelas seguintes razoes: 1) Ela é necessária para completar o sentido da linha; 2) Ela traz um sentido adequado ao contexto; 3) Ela é testemunhada pelos dois manuscritos do Mar Morto, sendo que o segundo rolo está quase sempre em concordância com o TM nas suas redações,[30] um fato que torna impressionante a palavra “luz” trazida por ele a esta altura; e 4) Ela é também refletida na versão da Setuaginta.
  • Em Is 56.12 no TM a primeira linha diz: “Vinde, dizem, trarei vinho, e nos encheremos de bebida forte”. lQIsaa traz o terceiro verbo na primeira pessoa do plural, sendo apoiado pela Vulgata, Siríaca e Aramaica, mas não pela Setuaginta. Assim, a tradução mui provavelmente certa é: “Vinde, dizem, traremos vinho, e nos encheremos de bebida forte”, pois, desta maneira não somente se reflete a leitura das fontes indicadas acima, mas também se estabelece um paralelismo de número entre os dois verbos das duas orações paralelas.
  • A segunda oração de Is 60.19 no TM omite a palavra “de noite”, contida em lQIsaa e apoiada pelas versões antigas da Setuaginta, Vulgata e Aramaica, tanto como pelos Targuns. A tradução certa, portanto, teria a seguinte forma: “Não te servirá mais o sol para a luz do dia, nem com o seu resplendor a lua de noite te alumiará”. Mais uma vez, nota-se como tal redação serve para restaurar ao texto o devido e costumeiro paralelismo. Cabe, ao findarmos este artigo, mais uma palavra, em face das evidências acima apresentadas, a respeito do valor dos rolos do Mar Morto para o estabelecimento de um texto hebraico crítico, que esteja o mais próximo possível do original, e para a confirmação ou não do Texto Massorético quanto à sua qualidade como principal fonte do texto hebraico crítico do livro de Isaías. Deve-se entender, entretanto, que estas não são as únicas contribuições dos dois manuscritos para o estudo do texto hebraico bíblico. O leitor terá notado que, embora lQIsaa contenha cera de 1.375 leituras variantes em comparação com TM, este artigo tratou somente de 27 delas, sendo que a maioria não é de grande importância para o estabelecimento de trechos chaves do texto e para questões doutrinárias. De fato, muitas variantes servem para contrariar o TM e mostram-se indignas de aceitação. As redações trazidas à luz acima, ajudam a estabelecer melhores traduções e a esclarecer a interpretação de alguns trechos problemáticos. Cita-se a seguinte avaliação de F. F. Bruce:

A maioria das divergências em lQIsaa que até fazem diferença quanto ao sentido do texto… simplesmente mostram… que o texto deste manuscrito, tio antigo como é, não é tio certo como o texto tradicional… recebido e transmitido pelos massoretas. Quanto ao lQIsab, as diferenças entre o seu texto e aquele dos massoretas são muito menores e de pouca significação em comparação com lQIsaa… Temos motivos para acreditar, então, que o texto consonantal da Bíblia Hebraica… editada pelos massoretas foi transmitido para o tempo deles com evidente fidelidade através de um período de quase 1.000 anos.[31]

Por Lonnie Byron Harbin, Th.D

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] J. Van dei Pleg, “Qumian” em Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 2ª edição (Petrópolis: Vozes, 1977), pp. 1254-1255.

[2] William Foxwell Albright, From the Stone Age to Christianity, 2ª edição (Garden City, Nova Iorque: Doubleday Anchor Books, 1957), pp. 3, 21, 376.

[3] O. Betz, “Dead Sea Scrolls’’ em The Interpreter’s Dictionary o f the Bible, Vol. A-D (Nova Iorque: Abingdon, 1962), pp. 794, 796.

[4] Edward J. Young, The Book o f Isaiah, Vol. I (Grand Rapids, Michigam: William Eerdmans Publishing Company, 1965), p. 481.

[5] William Sanford LaSor, “The Dead Sea Scrolls” em The Expositor’s Bible Commentary, Vol. I (Grand Rapids: Zondervan, 1979), pp. 395-396; e Millar Burrows, The Dead Sea Scrolls (Nova Iorque: The Viking Press, 1956), pp. 118-119.

[6]  Ernst Wurthwein, The Text o f the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1979), P. 32.,

[7] Edward J. Young, Loc. cit.

[8] Ernst Wurthwein, op. cit., pp. 107-108.

[9] Albright, op. cit, p. 21.

[10] Wurthwein, loc. cit.

[11] Ibid., pp. 34-35,40.

[12] LaSor, op. cit. p. 403.

[13] Joseph A. Callaway, “Isaiah in Modern Scholarship” (Review & Expositor, Vol.

LXV, n9 4 ,1 9 6 8 ), pp. 4 0 3 ,4 0 5 ; e Lasor, op. cit. p. 369.

[14] Wurthwein, op. cit., p. 32.

[15] F. F. Bruce, Second Thoughts on the Dead Sea Scrolls (Grand Rapids: Eerdmans,

1 9 6 1 ),pp. 58-59.

[16] William L. Holladay, editor, A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon o f the Old

Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), p. 113.

[17] Burrows, The Dead Sea Scrolls, pp. 307-308,

[18] Gleason L. Archer, Jr. Merece Confiança o Antigo Testamento? (São Paulo: Edi­

ções Vida Nova, 1979), p. 59.

[19] Burrows, More Light on the Dead Sea Scrolls (Londres: Seeker Warburg, 1959),

  1. 150.

[20] Holladay, op. cit., p. 52.

[21] Burrows, The Dead Sea Scrolls, p. 311.

[22] Bruce, op. cit., p. 62.

[23] Wurthwein, op. cit., p. 15.

[24] Burrows, More Light on the Dead Sea Scrolls, p. 151.

[25] Edith Allen, Compêndio de Arqueologia do Velho Testamento (Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1957), p. 135; e The Jerusalem Bible (Garden City, Nova Iorque: Doubleday &Company, Inc., 1966, p. 1223.

[26] Burrows, The Dead Sea Scrolls, p. 314.

[27] Ibid., More Light on the Dead Sea Scrolls, p. 314.

[28] Frederick Alfred Aston, The Challenge o f the Ages: N ew Light on Isaiah 53 (Nova Iorque: Research Press, 1969), pp. 8-9.

[29] Burrows, More Light on the Dead Sea Scolls, pp. 151-152.

[30] Biuce, op. cit., p. 64.

[31] Ibid., pp. 63-64.

 

Um comentário em “O livro de Isaías na Luz dos Rolos do Mar Morto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s