Alguns problemas da Inerrância Bíblica

Imagem relacionada                                                              Introdução

Escrever um artigo desses é um tanto controverso e complexo para discutir aqui. Controverso por causa de inúmeras discussões não resolvidas em círculos evangélicos e complexo por envolver um tema que segundo alguns está unido às doutrinas teológicas essenciais da fé cristã. Ao ler esse artigo, os leitores conheceram que o autor não compartilha de uma inerrância conforme ensinado por instituições conservadoras ou confissões de Fé.  Mas calma! Não é o fim, para você abandonar logo de cara esse blog, assim como outros artigos escritos por mim nesse blog, pode-se ver uma posição privilegiada em que pressuponho que a história bíblica esteja mergulhada.

Portanto esse artigo resume cerca de três itens básicos, que já foi publicado em Festschrift e na maior parte da literatura acadêmica da Moderna Crítica que ilustram como que muito do material bíblico apresenta ausência ou se contradiz com as fontes do Antigo Oriente Próximo.

                                                                   Elam

Os Elamitas são considerados como povo não semítico na Mesopotâmia dos finais do 4º milênio a.C., já a sua língua é considerado isolada sem aparentar um grupo linguístico específico. Ainda que de acordo com o Assiriologista Donald Wiseman há a presença de semitas na região por volta de 2.300 a.C., isto não soluciona a incongruência, pois mil anos antes da penetração semítica, a classificação elamita permanece desde o período mais arcaico como exclusão de qualquer contato e na etnicidade considerada não semítica.  Esse consideração entra em contradição com a afirmação bíblica de Gênesis 10:22. Pois ao nomear a descendência de Sem, Elam aparece logo em seguida como procedente de Sem? Isto pode muito bem se ajustar que um escriba vivendo no primeiro milênio a.C tenha inserido na narrativa bíblica, ou que o escritor original não tenha tido literatura suficiente a seu dispor para relatar as origens étnicas, políticas ou linguísticas.

                                                                Ur dos Caldeus

O problema para a inerrância nesse item, é que tal termo não designa uma área geográfica, mas sim a tribos caldeias. Pois os Caldeus são mencionados somente do século IX a.C. em diante nos anais assírios. Ur dos Caldeus aparece em Gênesis 11:28 como uma das cidades que Abraão tinha emigrado. Tal registro bíblico coloca a narrativa no 2º milênio a.C., mas contradiz totalmente a evidência histórica dos Caldeus, que só aparecem no Antigo Oriente Próximo no 1º milênio a.C. Mais uma vez, a inerrância bíblica falha. Vale lembrar que este item aqui, também é mencionado no livro Bible Unearthed de Finkelstein e Siberman, onde eles incorrem com a mesma argumentação minha.

                                                     Gogue e Magogue

A dificuldade centra-se aqui, no respeito a ausência de evidência toponímica no segundo milênio, pois ambos só são mencionados no primeiro milênio a.C em textos assírios e da Anatólia.  O fato de que são identificados com grupos da Ásia menor, conforme ilustrado por um mapa babilônico do 8º Século, demonstra como foram adicionados mais tarde por um escritor que trabalhou na edição da narrativa bíblica. Por exemplo, Gomer é identificado com os cimérios da Anatólia. Gogue é conhecido pelo rei Giges e traduzido como Gugu em Assírio e nas inscrições lidianas do 1º milênio a.C[1].

Esse exame básico recorrendo as antigas fontes do Oriente Próximo, demonstra que é insustentável a inerrância, já que a maior parte dos povos só aparecem mais tarde no primeiro milênio ou se contradizem com a evidência de materiais textuais.  Por meio de pressuposições teóricas e evidências arqueológicas é possível fundamentar a adição de material bíblico no 1º milênio a.C., mais especificamente no Reinado de Davi ou Salomão, sem refletir um relato lendário. Essa análise não está exaltando que essa menção de povos, esteja vinculada a um desenvolvimento folclórico por parte dos escritores bíblicos. Mas sim que há um desenvolvimento tardio e adicionado material literário histórico para fortalecer posicionamento das origens étnicas ou geográficas.

                                          Inerrância limitada e funcional

A inerrância limitada diferente da ilimitada é a perspectiva onde a inerrância só tem destaque em nível teológico, ela só pode ser considerada coerente em sua orientação religiosa, mas abre mão de erros em seu nível histórico.  A inerrância limitada ao contrário da ilimitada se caracteriza como uma visão bíblica mais ousada na interligação entre fé-história.  Na ilimitada, corre o risco da ‘perda de fé’ facilmente como é o caso de Barth Ehrman [Corrupção textual] que em sua pós-graduação, seguiu a opinião de seu professor que talvez Marcos estivesse errado.  Essa postura ortodoxa da Inerrância ilimitada, faz com que se exagere muito em questões que conectam doutrinas teológicas a História e que por fim cometem o assassinato da própria fé.

A Inerrância Ilimitada conforme ensinado por evangélicos conservadores coloca em perigo as doutrinas teológicas desvia a mensagem temática da Bíblia, e se por um erro que existe na Bíblia coloca em total dúvida o ensino bíblico. Inerrância Funcional assegura a mensagem da Bíblia em levar pessoas a Salvação.  Mas negativa o papel da inerrância bíblica em assuntos que contém facticidade. Esse tipo de variação na inerrância leva uma melhor coerência na função teológica e reflexão bíblica.

A Inerrância Limitada é apoiada pela Bíblia, uma vez que ela mesma reivindica sua inspiração em sua natureza teológica (2º Timóteo 3:16-17). A afirmação enfática de Paulo do adjetivo (theupneustos)=Inspiração que significa soprado-para-fora, isto é, que as Escrituras soprem Deus por meio de suas páginas, pois no processo teológico conduz o leitor a recorrer as Escrituras para que este chega-se até a Deus. Esse posicionamento escriturístico concorda com a inerrância funcional, onde a Bíblia tem sua função em sua transmissão devocional para o Cristão.

                                      Inerrância e os eruditos evangélicos

 Embora não seja possível fazer uma avaliação nesse artigo sobre a literatura acadêmica de estudiosos evangélicos que não aderem a causa da inerrância bíblica. Muitos estudiosos evangélicos sentem-se incertezas quando a compreensão do termo “inerrância e inspiração bíblica’’.   É necessário entender que a existência de erros na Bíblia, não compromete que Deus não preservou Sua Palavra, ou que ela não tenha contém verdade de Deus, ou ainda que Deus mentiu. Assim um dos estudiosos  mais importantes do Novo Testamento como NT Wright, admite que é possível ter uma visão elevada da autoridade das Escrituras ao recusar a inerrância da Bíblia.[2] Assim possivelmente um dos mais preferidos estudiosos dos cristãos como William Lane craig concorda que a Inerrância não se faz necessário.[3]  Robert Gundry é outro que não pode ser deixado de fora. Em seu Comentário de Mateus, ele faz uso de conhecidos  métodos acadêmicos como a midrash, e a considera os relatos mateanos tendo sofrido com mudanças e acréscimos.[4] Da mesma maneira Roger Olson nega o conceito de inerrância e afirma o valor transformador que a Bíblia possui na Aplicabilidade Cristã.[5]

É por isso que talvez a um grande indício dos estudiosos evangélicos em negar o conceito da inerrância, conforme assinado pelo ICBI ou Concílio Internacional de Inerrância Bíblica. Essa Ascenção não deve ser visto como compromisso pós-barthiano ou Neo-ortodoxo como os conservadores do Defending Inerrancy tem rotulado e criticado essa tendência em eruditos evangélicos, mas se trata de um refinamento de uma perspectiva adequada para a Igreja de hoje.

                                                                  Conclusão

Chegou a hora de os cristãos conservadores admitir que é impossível falar numa inerrância bíblica, pois a menção de certas localidades está ausente nas Inscrições do segundo milênio a.C. Em suma, não é porque existem erros na Bíblia que ela esteja errada em sua Teologia. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Isso não diminui o valor da autoridade bíblica, nem da Palavra de Deus em questões teológicas e práticas. A linguagem bíblica conforme conhecemos não foi escrita para ser um livro científico de História ou Biologia. Embora utiliza-se métodos estilísticos e o conhecimento humano que os autores moldaram para escrever,  o seu propósito  é maior do que a autoria e composição, pois  é na mensagem que ela transforma. Contudo deve-se entender que as abordagens críticas não abalam a estrutura teológica da fé cristã. Ainda que exista criação de material bíblico mais tardio que não havia anteriormente, isto não enfraquece os pontos doutrinários da Teologia Cristã.[6]

E para terminar, ficamos com a afirmação de Agostinho: “Eles propuseram falar a verdade onde era possível, tanto material quanto espiritualmente, e onde isso não era possível, era sua intenção preferir o espiritual ao material. A verdade espiritual foi muitas vezes preservada, como se poderia dizer, na falsidade material.”[7]

Jean Carlos

Bibliografia:

[1] (G. M. A. Hanfmann, “The Seventh Campaign at Sardis” [1964], BASOR 177, 1965, 34).

[2] Burk, Denny. “Is inerrancy suficiente?: A plea to scholars concerning the authority and sufficiency of scripture.” Southwestern Journal of Theology 50, no. 1. (September 2007):76-91.

[3] Disponível em: https://www.reasonablefaith.org/question-answer/P50/inerrancy-and-the-resurrection

[4] Gundry, Robert H. (Robert Horton) Mattew: A Commentary on his Literary and Theological Art. WB Eerdmans Pub. Co, Grand Rapids, Michigan, 1982.

[5] Disponivel em: http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2015/11/is-the-bible-inerrant-or-infallible/

[6] Isto pode ser resumido nessa excelente obra editada por Christopher M Hays e Christopher B. Ansberry, eds. Evangelical Faith and the Challenge of Historical Criticism. London: SPCK: Grand Rapids: Baker, 2013.

[7] Origen, Commentary on John, Book 10:4, English trans. by A. Roberts and J. Donaldson (Peabody, MA: Hendrickson, 1994).  Disponível em: http://www.earlychristianwritings.com/text/origen-john10.html.

4 comentários em “Alguns problemas da Inerrância Bíblica

  1. Engraçado, a fonte para encontrar erros na Bíblia é, ela mesma, insuficiente. Não dissertarei sobre as lacunas de tais fontes seculares (que são controversas entre os próprios liberais); embora esse artigo abaixo seja excelente em mostrar a falha da crítica no caso do ano da destruição de Jerusalém: https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/2011736.

    Deveras, e de fato, a mensagem bíblicos conteve alguns acréscimos ou alterações na sua formação, seja devido algum escriba descuidado ou algum criminoso posterior. Porém nada que comprometa a integridade do texto (diferente do que Erhman desesperadamente, e sem sucesso, tenta fazer crer). Os acréscimos, inserções, alterações, adulterações no texto bíblico são tão pequenos e num nivel de corruptibilidade tão ínfimo que já foram facilmente resolvidas a tempos (em ambos os Testamentos as “alterações” são desprezíveis. E quando não, são rapidamente corrigidas por tradutores posteriores, resgatando sua integridade textual sem dificuldades).

    Eu também sou “centro-direita” na erudição bíblica crítica, e compreendo que os 0,1-1% de “erros” no conteúdo histórico da Bíblia sequer arranham a sua mensagem teológica; e nem sua historicidade de um modo tão escandaloso quanto os céticos pregam. No entanto, você não acha pretensioso denominar estes supostos equívocos no (ou inseridos no) texto como “erro”? Porque pelo o que li o escritor bíblico não contradisse a história secular diretamente, somente não foi “confirmado” por idéias predominantes da arqueologia atual – que podem variar segundo novas descobertas. Talvez não foi erro, acréscimo, inserção nem adulteração, em alguns casos, mas um equívoco da própria crítica.

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  2. Caro Vyktor Maciel, as questões que remetem a Crítica Textual são muito delicadas em contraste com a afirmação que são recuperadas ou solucionadas. Existe pontos de discordância em muitos tópicos teológicos ao longo da Bíblia [que não podem ser reconsiderados aqui agora], e passou cerca de dois séculos de estudo e o que temos são: A) ausência de aceitabilidade nas recentes teorias B) divisão e incompatibilidade metodológica na medida em que a pesquisa aumenta e C) impossibilidade na Interpretação.

    Eu não diria que são “céticos” que propagam que certas incoerências na Bíblia, afetariam a mensagem do texto. Pois estes mesmos sabem dizer, que embora a Bíblia não possua historicidade, sua função principal está na mensagem em que ela transmite.

    Não acredito ser pretensioso, pois um leitura dos papeis da Declaração da Inerrância bíblica, logo demostrará que essa doutrina não consegue obter harmonia do texto bíblico com evidencias arqueológicas. Além disso, os resultados da crítica moderna, são valorizados até mesmo por estudiosos evangélicos que já reconhecem esses problemas da tradição bíblica.

    Abraços,

    Jean Carlos

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    1. Saudações! Compreendo seu raciocínio. Permita-me fazer uma observação: reconheço seu excelente trabalho em criticar os erros e excessos dos minimalistas. No entanto, eu espero que por se acostumar com a literatura mais liberal, você não caia em “concessões”, concedendo “factibilidade” a certas teses que acabam por entrar em coque com as próprias divinas Escrituras.

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      1. Caro Vyktor Maciel, Agradeço as suas ponderações sobre as minhas reflexões neste website. Ao que tange as questões críticas, eu admito que é necessário manter cautela sobre pressupostos e metodologias que por certos fatores filosóficos acabaram por entrar em dissensão com a Bíblia.

        Abraços,

        Jean Carlos

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